Trabalho: O Conceito de História na Antiguidade
1. Introdução
O conceito de história na antiguidade se tornou uma discussão entre gregos e romanos, pois eles discordavam entre si sobre o que seria a História e qual era a finalidade dela. Heródoto, Tucídides, Políbio e Cícero – os três primeiros eram gregos e o último era romano – fizeram parte dessa análise do conceito de história – entre outros historiadores antigos -, guardada as diferenças entre suas visões, pode-se dizer que concordavam no fato de que escrever os fatos acontecidos fariam com que os mesmos não caíssem no esquecimento.
Cada historiador antigo tinha seu método de escrita e suas diferentes visões sobre o que falar e por que falar. Inicialmente a grande discussão era sobre Logos e Ergon, e essa se deu – indiretamente -, principalmente, entre Heródoto e Tucídides. Logo depois veio a questão da utilidade da visão e audição para a escrita da História, ou seja, como lidar com a veracidade dos testemunhos e livros escritos anteriormente por outros historiadores.
Heródoto com seu caráter de simplesmente escrever as coisas e não se preocupar com veracidade delas, inclusive falando sobre o grau de confiabilidade dos testemunhos. Tucídides, contrário ao caráter retórico da história e contrário a Heródoto, se preocupava muito mais em escrever a verdade do que com as palavras. Políbio, foi um defensor da questão da diversidade de materiais para se estudar, defendia que o certo seria ter diferentes relatos e testemunhos para se analisar criticamente os acontecimentos. Salústio extingue o abismo entre Logos e Ergon, de forma que a relação entre Res/Verba ganha novos horizontes. E por fim, Cícero, o mais reputado dos oradores romanos, diz que a história é a mestra da vida e foi um grande admirador de Heródoto e Tucídides, porém discordava da forma rude da escrita deles.
Nesse trabalho irei analisar com a ajuda de uma bibliografia de apoio as nuances dos conceitos de História na antiguidade.
2. Os Historiadores, suas metodologias e tipos de escrita.
2.1. Heródoto
Heródoto, conhecido como o "Pai da História” – denominação dada por Cícero -, autor do livro “História” onde relata sua visão sobre as regiões as quais visitou, relata também as guerras Greco-pérsicas mostrando seus principais episódios.
Heródoto escreve seu livro para que os acontecimentos não caíssem no esquecimento, como ele mesmo afirma no livro I:
“Ao escrever a sua História, Heródoto de Halicarnasso teve em mira evitar que os vestígios das ações praticadas pelos homens se apagassem com o tempo e que as grandes e maravilhosas explorações dos Gregos, assim como as dos bárbaros, permanecessem ignoradas; desejava ainda, sobretudo, expor os motivos que os levaram a fazer guerra uns aos outros.” (p. 1 – Livro I - Heródoto)
Heródoto tinha seus princípios ao relatar os fatos em seu livro
“Os dois princípios aos quais Heródoto mantém-se consistentemente fiel [...]. O primeiro é o dever de dar prioridade a registrar e não a criticar. [...] O segundo princípio é a separação daquilo que ele viu com os próprios olhos daquilo que ele ouviu.” (p. 62, Momigliano).
Ele inclusive relatava o grau de confiança de seu relator quando o mesmo contribuía com alguma informação para a sua escrita.
Conhecer países estrangeiros para diversificar e conhecer os acontecimentos históricos era uma das práticas de Heródoto. Por isso ele expunha sua opinião sobre a confiabilidade dos relatos e dos acontecimentos.
“A tarefa de preservar tradições implicava a intenção de descobrir novos fatos. Juntos comportavam uma nova abordagem metodológica em que a confiabilidade da documentação era mais importante do que a avaliação racional das probabilidades”. (p. 63. – Momigliano)
Optou por fundamentar sua história por relatos de via oral e não por documentações escritas, como diz Momigliano. Entretanto, mesmo sendo um homem único e importantíssimo, não foi considerado verdadeiro em seus relatos, muitos críticos posteriores a Heródoto criticaram-no suas mentiras sem levar em conta que Heródoto não “se responsabilizava por todas as histórias que contava.” (p. 67 – Momigliano). Essa crítica se deu em maior parte por Tucídides, historiador que tinha repudia por Heródoto, sua maior desavença com Heródoto se deu pela definição da certeza histórica.
2.2 Tucídides
Tucídides de Atenas, autor de História da guerra do Peloponeso, afirmava escrever a guerra e não sobre a guerra. Segundo Felipe Charbel, em seu livro Timoneiros – Retórica, Prudência e História em Maquiavel e Guicciardini a relação entre Logos (palavra) e Ergon (feito) é concebida de uma maneira peculiar. Por exemplo, em Tucídides fora:
“testemunha dos acontecimentos mais grandiosos e memoráveis que tiveram lugar na Hélade desde o fim da guerra de Tróia e por isso mesmo apto a elidir em sua exposição todo e qualquer desnível entre o que aconteceu e o que é apresentado discursivamente, compondo uma narrativa que é ela própria a presença da guerra, segundo o ideal do rigor (akríbeia).” (p. 152 – Charbel).
Dessa forma, ele acreditava o Logos substituía o Ergon, sendo a sua palavra o retrato da guerra, a sua palavra era a guerra em si.
Em dois aspectos Tucídides se assemelha a Heródoto ao compor sua escrita, primeiramente ele “não questionava a pressuposição de que a tradição oral era mais importante do que a tradição escrita.” (p. 70 – Momigliano) e em segundo lugar, ele confiava mais em seus ouvidos e olhos do que nos ouvidos e olhos de suas testemunhas. Ainda segundo Momigliano, Tucídides distanciava-se de Heródoto de três maneiras: assumia a responsabilidade ao registrar algo, muito raramente ele indicava com detalhes as fontes de suas informações e para Tucídides, o passado não é interessante e significativo por si mesmo, já para Heródoto o passado tinha significado por si mesmo.
Tucídides foi um historiador que se preocupava mais com a verdade do que com as palavras, dessa forma, fez com que a história não fosse somente alvo da retórica – principalmente os romanos que faziam da história uma retórica total ao privilegiar mais as palavras do que a verdade -.
Ligado mais a história política, Heródoto conseguiu fazer com que seus sucessores acreditassem que a história é história política, sempre se preocupando em relatar o dito dos líderes políticos, pois considerava a voz dos lideres, a voz do povo.
2.3. Políbio
Segundo o autor Felipe Charbel, Políbio defende que o cotejamento de informações obtidas por meios orais ou pela leitura de livros não deve, porém, substituir a “investigação pessoal”. Políbio fora um examinador dos instrumentos geralmente usados pelos historiadores da época, a visão e audição. Ele afirmava que o melhor a ser feito era fazer com que a fonte de pesquisa fosse diversa, seja por via oral ou escrita, para que as diferentes visões sobre o acontecimento pudesse ser analisadas.
Para Políbio, a história era uma verdadeira ciência e tinha que ser estudada com amor à verdade e como já foi dito, necessitava de um exame crítico dos acontecimentos e relatos.
Ao contrário de Tucídides, Políbio não se limitou a dar importância somente à “história política”, ele discutiu questões políticas, militares e sociais. E não analisava tais fatos de forma cronológica apenas, mas analisava também as possíveis consequências.
Políbio achava que a história era algo passado que podia moldar o futuro constituindo assim, um aprendizado para as novas gerações.
2.4. Salústio
Salústio, escritor latino, faz uma nova abordagem da relação entre Res/Verba.
“Salústio não recorre ao procedimento da autópsia como solução para seu impasse, que é tratado como tensão constitutiva, no que diz respeito à verificação das dificuldades de adequar palavras e fatos e de constatar uma apropriação que não seja tida como maledicente, partidária ou puramente laudatória.” (p. 155 - Charbel)
A questão da virtus - força, vigor - ganha um papel central na discussão de Salústio, pois para ele, a virtus é o que faz com que o homem se diferencie do restante dos animais. E para conseguir a credibilidade do leitor, Salústio defende que o discurso retórico necessita de uma verossimilhança alcançada pela virtus.
2.5. Cícero.
Cícero, grande orador romano, em De oratore, “ele considera a especificidade do gênero história: ser uma construção de palavras e coisas devidamente ornada pela voz do orador [...]”. (p. 157 – Charbel). Ou seja, ele privilegiava o caráter retórico da história, dessa forma, uma escrita que não estivesse “luxuosa” não conseguiria despertar os sentimentos certos nos leitores.
Cícero nota que seus antecessores, principalmente os gregos, não tinham uma preocupação com as palavras a serem usadas. Cícero tem o desejo de trazer novos horizontes para a escrita da história, ele quer que a história deixe de ser uma “simples narração analítica dos fatos” (p. 16 – Ambrósio),
Para Cícero, segundo Ambrósio, o gênero para certo para a elocução da história tinha que ser da seguinte forma: próxima ao gênero dos sofistas e distante do gênero judiciário. Porém isso acarretava em dois problemas:
“O primeiro, de ordem retórica, pois a elocução da historia, como gênero demonstrativo, se afasta da elocução do gênero judiciário (Orator, 42 e 207). O segundo, de ordem prática, pois scribere historiam, como mostra o exemplo dos gregos, requer tempo e distância dos tribunais. Os loquentissimi homines romanos, ao contrário, dedicavam todo seu tempo e energia ao fórum.” (p. 18 – Ambrósio)
3. O Conceito de Verdade para os historiadores na antiguidade.
A palavra que definia verdade para os gregos, era “aletheia” que significa “o não escondido”. Dessa forma, o conceito de verdade para os gregos estava associado àquilo que existe tal como é, está também associado aos fatos perceptíveis. Para os gregos, tudo que realmente é verídico tem que ser claro e disposto. Assim, a mentira para os gregos era apenas aquilo que não era perceptível ou aquilo que estava mascarado de alguma forma.
Para os latinos, a verdade era camada de “veritas” que estava agregado à exatidão, ao rigor de um depoimento, ou seja, refere-se a enunciados que dizem com exatidão as coisas tais como aconteceram. Dessa forma, quando a linguagem enuncia fatos reais, eles são autênticos. Já a mentira para os latinos se referia à própria mentira em si, à falsificação, pois para eles, ou o fato era real ou imaginário.
A grande diferença nesse conceito entre latinos e gregos estava no fato de que para os primeiros, a verdade estava relacionada ao relato das coisas enquanto no segundo estava relacionado às coisas em si.
4. Conclusão
A escrita da História se deu por causa da necessidade do homem em falar sobre suas experiências: Os gregos que se apresentaram como testemunha ocular, como no caso de Heródoto, Tucídides e Políbio; E os latinos, se baseavam na escrita grega, porém impuseram em seus métodos a sua visão a par da importância da oratória.
A história “vem ao mundo” como simples investigação, pode-se notar isso em Heródoto, com os latinos ela “cresce” para narração. Para gregos e romanos a história servia para salvar os fatos do esquecimento - Heródoto, semelhantemente aos poetas, procurou salvar os fatos do esquecimento de forma que a memória fosse preservada e atribuiu a imparcialidade aos seus escritos, Heródoto respeitava os deuses e achava que somente eles alcançavam a verdade. Tucídides, também praticante da teoria de que a escrita da história salvaria os fatos do esquecimento, procurou separar sua escrita dos mitos gregos. -.
Diferentemente dos historiadores contemporâneos, os historiadores antigos achavam que história e poesia, história e retórica se completam e não se opunham como ocorre hoje em dia.
Dessa forma, muitos historiadores modernos e contemporâneos não consideram os historiadores antigos como historiadores veredictos. Já outros contemplam os historiadores antigos como grandes escritores e aceitam que eles foram de imensa ajuda para se entender os acontecimentos passados e para se estudar a própria historiografia.
5. Bibliografia
AMBRÓSIO, Renato. “Cícero e a História”. Revista de História. 147 (2002).
HARTOG, François. Os antigos, o passado e o presente. Brasília: Editora UnB, 2003, pp. 11-33.
HERODOTO. História. São Paulo: Ediouro, sd.
KOSELLECK, Reinhart. “História Magistra Vitae – Sobre a Dissolução do topos na história moderna em movimento”. In: Futuro Passado. Contribuição à semântica dos tempos históricos. Rio de Janeiro: PUC-Rio: Contraponto, 2006.
MIMIGLIANO, Arnaldo. “A tradição herodoteana e tucidideana”. In: As raízes clássicas da historiografia moderna. Bauru: Edusc, 2004, pp. 55-83.
SALÚSTIO. A conjuração de Catilina. Pretrópolis: Vozes, 1990, pp. 47-134.
TEIXEIRA, Felipe Charbel. Timoneiros: retórica, prudência e história em Maquiavel e Guicciardini. Campinas: Editora da Unicamp, 2010, pp. 159-210.
TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso. Brasília: Hucitec: Editora da UnB, pp. 19-81.
HERÓDOTO. Biografia. Disponível em: <http://greciantiga.org/arquivo.asp?num=0345>. Acesso em: 10 de novembro de 2011.
TUCÍDIDES. Biografia. Disponível em: <http://greciantiga.org/arquivo.asp?num=0366>. Acesso em: 10 de novembro de 2011.
POLÍBIO. Biografia. Disponível em: <http://greciantiga.org/arquivo.asp?num=0557>. Acesso em: 10 de novembro de 2011.
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Resenha: GUIMARÃES, Manoel Luís Salgado. Nação e civilização nos trópicos: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o projeto de uma História Nacional.
Resenha: GUIMARÃES, Manoel Luís Salgado. Nação e civilização nos trópicos: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o projeto de uma História Nacional. Rio de Janeiro, Estudos Históricos 1(1) 1988, P.5-27.
Graduado pela Universidade Federal Fluminense e Doutor em História pela Universidade Livre de Berlim, Manoel Luís Lima Salgado Guimarães, autor de “Nação e Civilização nos Trópicos: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o Projeto de uma História Nacional” propõe em seu texto uma discussão sobre a formação da historiografia nacional e o próprio conceito de nação brasileira.
No Brasil, no ano de 1838 é fundado o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e é a mais antiga entidade de pesquisa historiográfica, com o intuito de construir, segundo Manoel Luís Lima Salgado, um delineamento de um perfil para a “Nação brasileira”, capaz de lhe garantir uma identidade própria no conjunto mais amplo das “nações”.
A construção do significado da historiografia nacional fundamenta-se em fortes ideais iluministas preponderantes do século XIX. O autor deixa isso bem claro na passagem:
[...] A fisionomia esboçada para a Nação brasileira e que a historiografia do IHGB cuidará de reforçar visa a produzir uma homogeneização da visão de Brasil no interior dás elites brasileiras. É de novo uma certa postura iluminista – o esclarecimento, em primeiro lugar, daqueles que ocupam o topo da pirâmide social, que por sua vez encarregar-se-ão do esclarecimento do resto da sociedade – que preside o pensar a questão da Nação no espaço brasileiro. [...] (p. 6)
Como relata Manoel Salgado, a presença da tradição historiográfica iluminista na concepção de história do IHGB, tanto pelo tratamento linear dos fatos, quanto por sua instrumentalização como “mestra da vida”, é a tradição particular do iluminismo português, marcadamente católico e conservador, que deixará suas marcas na geração fundadora do Instituto de História.
A ideia de nação que o IHGB vinha formulando não tinha bases na oposição à antiga metrópole portuguesa. A nova nação brasileira se via como continuadora de uma tarefa civilizadora que fora iniciada pela colonização portuguesa. Compunham uma discussão historiográfica relativa ao problema nacional a Nação, o Estado e a Coroa.
O fato do Estado e a Nação serem pensados em esferas iguais se difere do modelo europeu onde Nação e Estado não fazem parte da mesma esfera. Já um ponto mais do que apenas comum e sim relação de total influência, guardada as especificidades históricas de cada uma das instituições, é o fato de que o IHGB tinha o Institut Historique de Paris, como principal fornecedor dos parâmetros de trabalho historiográfico.
Em 15 de dezembro de 1849, a inauguração de novas instalações, no Paço da Cidade, simbolizam, de acordo com Manoel Salgado, um novo começo para a vida da entidade e marcam nitidamente um aprofundamento de suas relações com o Estado Imperial. A partir dessa data, o imperador, passa a ter uma presença assídua e participante – o que antes se restringia a reuniões anuais comemorativas –, contribuindo para a construção da imagem de um monarca esclarecido e amigo das letras.
Dessa forma, o Instituto passa a dar prioridade à produção de trabalhos inéditos nos campos da história, da geografia e da etnologia. A mudança se materializa realmente com os novos estatutos promulgados em 1851 (Revista do IHGB. Rio de Janeiro, 12(13): 551 Out./Dez. 1849.) visavam à consolidação e profissionalização do IHGB. Presos à ideia obtida do iluminismo, onde a história é um processo linear marcado pelo progresso, os intelectuais do IHGB tratavam o caso brasileiro como parte dessa linha evolutiva.
Nesse campo de raciocínio, decidiram obter conhecimentos arqueológicos, linguísticos e etnográficos para poder se ter acesso à cultura dos indígenas e queriam, de certa forma, provar a inferioridade do povo indígena à “civilização branca”. Acaba-se por ser concluído que o indígena poderia ser uma possível solução para a questão da mão-de-obra no período após a abolição do tráfico escravo, e o negro continua sendo considerado responsável pelo atraso do país.
Sucessor de uma ideia antiga de história, o Instituto de História lança-se à tarefa de escrever a gênese da Nação brasileira, preocupação que na realidade cabe à historiografia moderna europeia do século XIX. Segue, então, o IHGB a escrever e pensar uma história de aspectos antigos e modernos. O IHGB na sua tarefa de contribuir para a construção da Nação brasileira, nas palavras de Manoel Luís Lima, levanta a questão da história como experiência e fonte de pesquisas, onde a escrita da história poderia servir de exemplo para que os políticos se baseassem e então, melhor desempenhassem suas funções. Essa ideia está claramente explicita no momento em que o escritor afirma:
[...] Da história, enquanto palco de experiências passadas, poderiam ser filtrados exemplos e modelos para o presente e o futuro [...]. A história é percebida portanto, enquanto marcha linear e progressiva que articula o futuro, presente e passado; [...] (p. 15)
O IHGB incentivará excursões e viagens pelo interior do Brasil, na esperança de adquirir material para ajudar na escrita da história nacional e caso esse material não fosse adquirido, a viagem não seria em vão, pois a possível descoberta de novos terrenos serviria ao Estado. Havia uma importância tripla nessas viagens: a obtenção de materiais para a escrita da história; economicamente, a obtenção de novas terras para cultivo agrícola e descobertas de riquezas minerais; e politicamente, a “interiorização da civilização” e o reconhecimento de fronteiras. Tais viagens, segundo o autor, tiveram apoio total do IHGB e do próprio Estado, que as financiava.
Em sua obra, Manoel Luís Lima Salgado, apresenta os principais motivos para a criação do IHGB de uma forma bastante crítica e utiliza um vocabulário de fácil compreensão e absorção por parte do leitor. Com base na visão do autor, pode-se concluir que o processo de criação, escrita e pensamento da história nacional deu-se de forma bastante diferenciada do modelo europeu - apesar da grande influência -. O grande ideal radical iluminista, assim como a participação do Estado, corpo de intelectuais do IHGB não serem de fato historiadores e outros fatores, deu outro viés ao objetivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Objetivos estes de caráter político, econômico e social que se deram de forma centralizada e ao que se pode ver, foram alcançados.
Bibliografia:
GUIMARÃES, Manoel Luís Salgado. Nação e civilização nos trópicos: O Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e o projeto de uma História Nacional. Rio de Janeiro, Estudos Históricos 1(1) 1988, P.5-27.
Resenha: RÜSEN, Jörn. Razão Histórica.
Resenha: RÜSEN, Jörn. Razão Histórica. Teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora UnB, 2001, pp. 11-51.
Doutor em Filosofia e História pela Universidade de Colônia, Jörn Rüsen, autor do livro “Razão Histórica – Teoria da história: os fundamentos da ciência histórica” desenvolve ao longo do texto o que são os fundamentos da ciência da história e logo após propõe uma discussão sobre os fundamentos que o pensamento histórico-científico se baseia.
Os fundamentos da ciência da história baseiam-se na questão da razão na história. Para Jörn Rüsen, essa base é inevitável, pois não há pensamento sobre a história que não esteja motivado pela carência de sentido. Porém essa razão não pode ser tratada somente como uma propriedade qualquer da história. Jorn Rusen deixa essa questão bem clara na seguinte passagem: “A perspectiva não será, pois, a de uma propriedade qualquer da história que se chamaria ‘razão’, mas a de saber como se constitui o pensamento sobre a história que se apresenta como ciência.” (p. 12)
A questão da razão é própria da ciência. E como a ciência da história é um ramo que trata a história de forma racional, então a questão da razão não pode ser ignorada quando originada da carência de orientação da práxis humana. Sendo assim, a ciência da história, como Jörn Rüsen afirma, está entre “a cruz e a caldeirinha” pois a ciência não é o melhor ramo para responder questões de carência de sentido porém não pode ser deixada de lado pois move outras questões importantes.
A teoria da história, para Rüsen, consiste na análise da pretensão de racionalidade da ciência da história. No sentindo clássico de teoria, pode-se dizer que a teoria da história é uma “teoria” da ciência da história que significa a análise de um determinado conteúdo buscando suas determinações racionais. Essa teoria da história diante de determinadas estruturações do pensamento histórico, segundo Rüsen, se põe as condições da pesquisa histórica sem que ela seja diretamente objeto da pesquisa histórica. Dessa forma, a teoria da história e a ciência da história mantêm suas visões e suas diferentes utilizações sobre a razão.
Mesmo com divergências e pontos comuns, a relação de uma teoria da história com a ciência da história é de esclarecimento. Rüsen mostra essa questão no trecho:
[...] Não é que toda luz na ciência da história provenha da teoria da história, mas as coisas ficam mais claras quando o pensamento histórico reconhece sua aptidão à racionalidade também na operação de explicitar-se por seus princípios. [...] (p. 22)
A autorreflexão é um elemento crucial no dia-a-dia da ciência. O processo do pensar história tornar-se-ia frágil caso o sujeito do conhecimento não pensasse sobre si mesmo. Por esse motivo o cotidiano do historiador é base natural da teoria da história. E essa teoria é uma elaboração dessa constante reflexão do historiador sobre si mesmo. A teoria vai além do trabalho do historiador de descrever e demonstrar que a reflexão de seu pensamento histórico emerge do trabalho prático do próprio historiador, segundo Rüsen, a teoria é necessária sempre que se tratar de fundamentar, justificar ou modificar sempre que se tratar do sentido do trabalho histórico. Sendo assim, a teoria da história é a reflexão a qual o pensamento histórico se constitui como especialidade científica.
Os que se dedicam à pesquisa histórica e à historiografia têm de ser especialistas, têm que saber manusear a especificidade científica do pensamento histórico sem que pense nela, essa especificidade tem de ser automática. Por esse motivo existe a competência científica especializada pois efetiva-se sempre em campos particulares da pesquisa e da historiografia, porém essa habilidade não é adquirida quando se pesquisa somente assuntos específicos, pelo contrário, antes é necessário um estudo sobre o conjunto, assim que se é formada uma noção do todo histórico, pode-se seguir com a especialização. Para Rüsen, a visão do conjunto é necessária ao trabalho especializado competente em cada tema. E a teoria é o plano da ciência da história em que essa visão é adquirida. A teoria cuida para que no processo da ciência especializada, como constituição do pensamento histórico, não seja perdido de vista, nos múltiplos processos do conhecimento histórico, em benefício dos processos particulares de conhecimento.
Mas o que a teoria da história entende como “a totalidade” da ciência da história? Jörn Rüsen questiona-se e logo após afirma:
[...] Nas suas formulações anteriores, a teoria da história buscou efetivamente apresentar uma visão panorâmica do campo inteiro do pensamento histórico, com o caráter de uma enciclopédia. À maneira de um manual, ela difundiu os resultados obtidos até então pela pesquisa histórica e fixou, ao mesmo tempo, os critérios determinantes dessa pesquisa, as regras da historiografia e, de forma esquemática, a história do pensamento histórico e de sua historiografia. Com a aceleração do progresso do conhecimento [...] esse tipo de apresentação enciclopédica tornou-se problemático. [...] a multiplicidade dos conhecimentos obtidos pela ciência da história e a variedade dos recursos metódicos, [...], os fatores gerais e fundamentais do pensamento histórico que formam a constituição da ciência da história, então seu tratamento tem de ser completamente diverso do enciclopédico. [...] (p. 28)
A teoria da história tem de se preocupar com os fatores que determinam o conhecimento histórico que delimitam o campo inteiro da pesquisa histórica e da historiografia, segundo Rüsen, para isso cria-se a Matriz Disciplinar, pois a teoria da história nada tem de estático, ela é dinâmica e seus objetos são os fundamentos e os princípios da ciência da história.
A teoria da história deve-se ocupar do exame da matriz disciplinar. Para Rüsen, a matriz disciplinar é um conjunto sistêmico entre a passagem da vida prática para a ciência histórica e vice-versa. Sendo assim, a matriz disciplinar é circular e é uma espécie de mutualismo obrigatório. A matriz disciplinar é composta de cinco elementos: Interesses (O que lança alguém a tentar compreender a história. A carência de sentido que será preenchida pela história.), Ideias (Formas de abordar o material empírico do passado que precede o contato com tal material. Segundo Rüsen, ideias são os referenciais supremos que emprestam significados à ação, elas servem à transformação de carências motivadoras em interesses em agir.), Métodos (Para Rüsen, métodos são regulamentadores do pensamento histórico, que lhe possibilitam produzir fundamentações específicas e lhe permitem assumir o caráter de pesquisa, eles por certo influenciam o modo pelo qual as perspectivas são concebidas. Ou seja, os métodos são o caminho para a construção do conhecimento.), Formas (Diferentemente dos métodos, as formas desembocam os processos de pesquisa do conhecimento histórico regulados metodicamente, segundo Rüsen.) e Funções (Nas palavras de Rüsen:
[...] As funções têm de ser consideradas como um fator próprio de seus fundamentos, na medida em que se quer saber por que é racional fazer história como ciência e em que consiste essa ‘racionalidade’. [...] Não se pode caracterizar suficientemente o que é a história, em seus fundamentos, como ciência, se não se considerar a especificidade do pensamento histórico também na função de orientação, da qual afinal se originou. [...] ) (p. 34)
Dessa forma, a matriz disciplinar é dependente da vida prática do historiador que se relaciona com a ciência da história e ela permite reconhecer que a história como ciência ajuda para que os homens em seus tempos realizem mudanças em suas vidas práticas.
Em sua obra, Jörn Rüsen, apresenta as relações entre teoria da história e ciência da história, apresenta também as formas em que elas aparecem e suas relações e como elas influenciam no trabalho do historiador e no processo de escrita da história e pesquisa histórica. Com base na visão do autor, pode-se concluir que a vida prática e a ciência da história são de grande importância uma para outra e para o estudo da cientificidade da história. De forma objetiva e esclarecedora, Rüsen aponta suas conclusões a respeito e deixa um vão para que os leitores tirem suas próprias conclusões.
Referências Bibliográficas:
RÜSEN, Jörn. Razão Histórica. Teoria da história: os fundamentos da ciência histórica. Brasília: Editora UnB, 2001, pp. 11-51.
RÜSEN, Jörn. Currículo Lattes. Plataforma Lattes. Disponível em:
< http://lattes.cnpq.br/3114512035546178>. Acesso em: 21 Setembro 2011, 15:35:40
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Apresentação
Oláááá,
Fiz esse blog para postar as resenhas/trabalhos/e afins que fiz e farei ao longo do meu curso de História da UFRJ.
Dessa maneira, espero ter críticas e etc além das do professor.
Ainda estou no primeiro período da faculdade (acabei de sair dele, alias... estou indo para o segundo... mas as resenhas que irei postar inicialmente são do primeiro período) então não esperem muito, pois ainda estou aprendendo.
;D
seeyou